quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O PALHAÇO

O palhaço desenha um sorriso em sua boca,
Coloca uma rubra bolinha no nariz,
Entra no palco com enormes sapatos.

A cada movimento, uma risada,
As gargalhadas alimentam suas ações
mas devoram sua alma.

Ele realiza gestos exagerados:
Joga-se no chão,
Finge se machucar.

A plateia, em meio ao delírio, parece rugir:
“Mais, mais, mais”, lhe clamam.
E ele mais uma vez pula e dança,
Ao som das ordens de seus espectadores

A maquiagem começa a derreter com o suor,
Sua verdadeira face, tão marcada, é exposta.
Seu cansaço é aparente.
“Mais, mais, mais”, comandam as vozes nervosas.

Ele faz troças de si.
Parece chorar em um momento,
Mas segue com suas piadas.

Ao fim do show, retorna lentamente ao seu camarim,
Olha seu reflexo no espelho...

Não gosta do que vê!
Ninguém aplaude este!
Querem a pintura e a voz esganiçada!
Mais risos, mais piadas, mais quedas!

Ele também almeja ser o outro,
Ser querido e amado.
Tenta sorrir, mas sua mandíbula parece travada.
Seu corpo dói e o coração lateja.

Por que não pode ser como o palhaço que
se apresenta todo dia no palco?
Por que sempre está tão solitário?
Levanta-se tentando ao máximo
Não ver a feição à sua frente.

Não aguenta outra noite...
A despedida é dramática,
Apesar de sem testemunhas.

Sua última performance:

 - uma cadeira e uma corda.

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