domingo, 21 de setembro de 2014

A Nouvelle Vague e o anticoncepcional

Cinco décadas depois, a mudança parece não ter sido tão grande. Aquela grande revolução nos parece algo pequeno por já termos nos acostumados com suas conseqüências. O que antes chocava e soava como loucura, agora é considerado trivial. Discretamente, os jovens loucos popularizariam aquilo que lhes livraria dos grilhões propostos por seus pais e de uma sociedade conservadora... o anticoncepcional.
A pílula mágica se tornaria ícone da independência feminina. Sua sexualidade não estaria mais associada às decisões de seus pais ou de seu marido. Começou, assim, silenciosamente, uma revolução que – tal como outras – confundiria quem a testemunhou. A livre expressão da sexualidade humana traria desdobramentos políticos, igualitários e libertários.
Essa alteração cultural tão brusca não passaria despercebida por outro evento que mudou radicalmente a maneira de se pensar – dessa vez no campo audiovisual -, a Nouvelle Vague.
Diretores como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e outros captavam com suas lentes a realidade que lhes circundava, ainda que o fizessem através de ficções. Seus personagens eram mais verossímeis e o turbilhão provocado pelas mudanças comportamentais da época seria abordado mesmo que discretamente.

1- Gravidez antes do casamento, jamais
Raramente a pílula miraculosa seria mencionada, mas em quase todos os filmes é abordada a questão da mulher moderna. Até então, era mal vista aquela tivesse relações com mais de um homem, ou pior ainda, tivesse um filho fora do casamento. Em “Os guarda-chuvas do amor”[1] de Jacques Demy, por exemplo, a personagem Geneviève Emery (interpretada por Catherine Deneuve) contraria a mãe ao engravidar de seu grande amor, o soldado Guy Focher (Nino Castelnuovo). Esta, por sua vez, tenta dissuadi-la da idéia de esperá-lo e a convence a se casar com o rico Roland Cassard (Marc Michel) para evitar que sua filha fique ‘mal falada’.
Esse tema também apareceria, ainda que não com destaque, em “Os incompreendidos”[2] de Truffaut. Nele, a mãe do protagonista Antoine Doinel admite para policiais que, na realidade, seu marido a aceitou grávida, mas que não é o verdadeiro pai do menino. A princípio, isso parece um detalhe dentro da trama, no entanto, o fato de não ter laço sangüíneo, ainda mais na década de 50, pode explicar o relativo pouco caso com o pequeno Antoine.  
Em “Acossado”[3], Patricia Franchini (Jean Seberg) passa pela mesma situação. Ela descobre que está grávida, mas não vê um futuro com seu namorado, Michel (Jean-Paul Belmondo). Ao longo de todo o filme, Michel tenta convencer-la a ter a vida que ele decidir, porém ela tem outros planos como seguir carreira como jornalista e proteger seu bebê. Tamanha independência era um enigma para o protagonista – tal como devia ser para o diretor da produção – que não aceitava muito bem a idéia de que ela escolhesse quando e com quem teria relacionamentos sexuais. Michel, tal como muitos de seus contemporâneos não estava preparado para essa ‘nova’ mulher que esta disponível para sexo sem compromisso, mas que define suas próprias regras.     

2- Nem santa, nem fatale...
Antes dos primeiro filmes da Nouvelle Vague era raro despir as personagens femininas de sua aura angelical. Poucos eram os diretores que ousavam enfrentar a censura e/ou a sociedade em prol de apresentar mulheres mais fortes e independentes. Em geral, essas eram retratadas como femmes fatales – aquelas que atraem homens incautos para o perigo.
Quando se apenas apresentava duas opções para as mulheres – a virginal ou a vilã – criava-se a impressão de que não era possível existir nada além dessas possibilidades. “Mulheres à frente de seu tempo” recebiam um nome bem diferente (não será mencionado, pois se trata de um palavrão). Elas deveriam obedecer às decisões masculinas seja paterna ou do marido sem questioná-los.
Em “Minha noite com ela”[4], temos duas personagens que em um primeiro momento poderiam ser justamente identificadas com os clichês anteriormente mencionados. Maud (Françoise Fabian) atrai sua ‘presa’ para sua casa e tenta seduzi-lo para que durma com ela tal como uma versão feminina do lobo mau. Primeiro, diz para ele ficar na casa dela enquanto neva, depois revela que só há uma cama disponível – a dela – e ainda lhe diz que dormirá nua. O pobre Jean-Louis consegue defender sua pureza, mas quando finalmente resolve ceder, esta lhe diz que não tem paciência com indecisos.
No dia seguinte, encontra a mulher de seus sonhos: linda, loira, jovem e religiosa. Casa-se com ela, tem um filho e encontra Maud anos depois que tem um final não tão alegre. A princípio, nos parece que a vilã foi punida e os mocinhos viveram felizes para sempre. Entretanto, Maud nunca feriu ou forçou ninguém a nada e teve uma vida relativamente correta – pelos menos dentro de seus princípios. Já a angelical esposa de Jean-Louis –Françoise – já cometeu seus pecados no passado, tendo sido amante do ex-marido de Maud.
Já no filme “O ano passado em Marienbad”[5], a complexidade da personagem feminina só é superada pela própria narrativa da produção. “A” (em nenhum momento é pronunciado seu nome) é perseguida por “X” um obcecado homem que afirma tê-la visto no ano anterior e que esta teria lhe dado esperança de que um dia se encontrariam. Não se sabe se trata-se de uma invenção dele, se ela de fato traiu “M” (nem mesmo se “M” é seu marido ou não), se pretendia fugir ou se tudo é fruto da imaginação do protagonista. Estaria ela na verdade tão confusa sobre a realidade quanto o homem? De todo modo, não se deve incluir-la no hall de femmes fatales por haver dúvidas de sua intenção de corromper aqueles que a cercam, tampouco se pode dizer que ela é uma mera vítima de um louco. O que se infere a partir da trama é que há uma luta entre o desejo e o temor das conseqüências de seus atos e isso fica evidente em “A” que a todo momento se recusa a concorda com “X”, mas age de maneira oposta.

3- Um é pouco, dois é bom, três não é nada anormal. 
Apesar de se passar no início do século XX - do período anterior à I Guerra Mundial à década de 20 – podemos perfeitamente encaixar a narrativa de “Jules & Jim”[6] nos loucos anos 60. Jules, Jim e Catherine são três jovens um tanto ingênuos que convivem em perfeita harmonia até que começa a guerra. O frágil Jules acaba por a atrair a princípio, porém, quando já casada, se apaixona pelo charmoso Jim.
Nota-se então uma espécie de fim da utopia e do romantismo com o tempo em que Jules e Jim ficam separados em fronts opostos. O equilíbrio se rompe com a chegada das responsabilidades tais como a maternidade (o casal tem uma filha chamada Sabine) e a rotina de um matrimônio.
  Catherine representaria o espírito livre; libertária e contestadora que não deseja ser domada e que não consegue sobreviver a uma vida trivial. Uma feminista demasiado passional que ignora o que é pregado pela sociedade se relacionando com quem tiver vontade o que se choca com a atitude submissa de Jules que apesar de se encantar com a impetuosidade de sua esposa, não consegue fazê-la feliz em uma vida em família.

4- É proibido proibir!
A idéia de que é necessário casar e ter filhos para contentar uma mulher é contestada nessa produção tal como vinha sendo debatida fora das telas. A entrada feminina no mercado de trabalho crescia cada vez mais assim como diminuía o número de filhos por família. O anticoncepcional seria apenas um meio de acelerar e facilitar esse processo que já vinha em curso.  
Se buscarmos um traço comum nos filmes da Nouvelle Vague, perceberemos que apesar das diferenças individuais, todos os diretores buscam representar a juventude e retratar a vida desses sem moralismo. Não se tenta dar um final feliz, inclusive, por vezes, o ‘fin’ aparece, mas as dúvidas continuam pairando no ar, pois assim é a vida! Muito se discute nesses filmes, em alguns há até a presença de filósofos (como em “Viver a vida”[7]), mas a intenção não é trazer uma solução definitiva.
Essa confusa ruptura com os padrões propostos pela ‘velha guarda’ não acontecia só no campo audiovisual, representava o que a juventude francesa e de outras nacionalidades buscavam. Não sabiam identificar o que era melhor para eles, mas sabia o que não queriam.
  Em “Viver a vida”, nota-se a incorporação dessa maneira de pensar. Nana abandonara marido e filho, se prostituia e não aparenta se arrepender de suas escolhas. Ao longo do filme a vemos seguir um caminho descendente, entretanto, ela aparenta estar convicta de suas decisões; o que pode vir a ser chocante para o espectador. Em um momento chave, ela assiste “O Martírio de Joana d'Arc” de Carl Dreyer e se debulha em lágrimas, é um primeiro lampejo de emoção por parte dela. Talvez por se identificar com a personagem principal, talvez por se dar conta de que seus atos seriam julgados por homens que jamais a entenderiam...
5- Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...
As produções desse período buscavam romper com o que veio antes, um quase parricídio, mas não tinham controle do que geraria adiante, talvez nem tivessem total consciência do que faziam naqueles anos. Para seus contemporâneos, eram jovens insolentes que não iriam muito longe. Hoje, as ‘novidades’ técnicas propostas por aqueles pioneiros são aplicadas em programas de TV no horário nobre, vídeo-clipes da MTV se inspiram nessa época e qualquer cineasta de Hollywood cita Godard (ainda que quase nenhum de fato tenha visto algum de seus filmes).
O que ocorreu após a revolução sexual dos anos 60 pode ser considerado ainda mais trágico. Sexo se tornou banal e uma estranha contra-revolução surgiu: o aumento do movimento em favor da castidade[8].
Ainda sim, os dois movimentos inspiraram muita gente e abriram muitas portas. E que venha a próxima geração para quebrar mais barreiras!


Bibliografia:
“História do cinema mundial” – MASCARELLO, Fernando (org.)
“A magia do cinema” – EBERT, Roger   



[1] “Les parapluies de Cherbourg” (1964)
[2] “Les quatre cents coups” (1959)
[3] “À bout de souffle”, Godard (1960)
[4] “Ma nuit chez Maud”, Rohmer (1969)
[5] “L'année dernière à Marienbad” (1961) - dirigido por Alain Resnais
[6] “Jules et Jim” (1962) – dirigido por François Truffaut
[7] “Vivre sa vie: Film en douze tableaux” (1962) – dirigido por Godard
[8] Sobre as celebridades que ficam famosas divulgando sua virgindade, anéis de castidade e os –bizarros- bailes de pureza, veja o especial “A Nova Castidade” produzida pelo VH1.

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