sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A Rainha

No início, sentava-se em uma cadeira de madeira comum. Rodeada de amigos também em assentos iguais ao seu, conversavam sobre o que cada um estava passando. Sentia-se especial por estar cercada por tanto carinho.

Mas um dia, achou sua cadeira muito baixa. Então, colocou tijolos sob cada um dos pés. Estava rodeada de amigos que ficaram, assim, um pouco abaixo dela. Nem todos conseguiam se fazer escutar, pois ela os interrompia, elevando sua voz  ao julgar alguma história monótona. Alguns se levantaram e saíram, outros permaneceram achando que eram mais interessantes que os demais. Ela se sentia especial porque estava cercada pelos “melhores”.

Trocou a cadeira por um trono altíssimo. Estava rodeada por admiradores sentados em almofadas. Falavam sobre como eram superiores e como não lhes faziam falta os que saíram. Alguns, notando que estavam desconfortáveis nos novos “assentos” se levantaram. Ela se sentia especial, pois era adorada.

Colocou o trono no topo de uma enorme escadaria. Seus partidários sentavam ao chão e eram chamados um a um para se pronunciarem. Usavam esse breve tempo para falar mal dos outros que permaneciam abaixo e planejavam maneiras de que brigassem entre si. Alguns, enquanto não subiam os degraus, aproveitavam que não eram ouvidos e arquitetavam a derrubar do trono. Ela sentia-se especial porque tinha total poder sobre o que aconteceria com os membros de seu grupo, enquanto os proibia de ter qualquer contato com os que considerava banidos.

Isolou-se em uma torre. Recebia algumas visitas de seus servos que se julgavam especiais por poderem lhe falar. Umas duas vezes, amigos que há muito não a viam, tentaram em vão conversar com ela sobre como se preocupavam com sua postura. Foram expulsos porque “se a amassem de verdade, deveriam tão somente lhe servir”. Sentia-se especial, pois era melhor que os outros.

Um dia, olhou pela pequena janela de sua torre e notou, ao longe, um grupo sentado em cadeiras de madeira conversando e rindo. Sentia-se triste... mas isso ninguém jamais soube, pois nunca mais alguém a procurou.

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